No início da
Idade Média, no período de 476 até o ano 1000, que tem início na queda do
Império Romano do Ocidente considerado pelos historiadores como Alta Idade
Média, o sexo feminino era visto como secundário e inferior ao sexo oposto,
partindo esta ideia estereotipada, do Livro Sagrado, desde a criação do mundo:
“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão e este adormeceu. E
tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o
Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher e trouxe-a a Adão”. (LEAL, 2012,
p.1). Sendo assim, a mulher devia se portar de forma contida, submissa e
inferiorizada. A ideia partia do pecado original de Eva denominando-a como
pecadora, sendo desvalorizada tal qual o seu corpo.
Os clérigos utilizaram-se da
origem da mulher para terem um argumento contra ela; como a mulher foi feita da
costela de Adão, os religiosos diziam que esta já teria uma ligação carnal e
corporal. Quanto ao homem, o pensamento era diferente: tendo este ganhado a
vida a partir de um sopro Divino, ele estaria mais próximo de Deus e de tudo
que é espiritual. (LEAL, 2012 p. 3).
A igreja
católica teve importante influência na definição do papel da mulher perante a
sociedade, ainda neste mesmo período (séc. V ao XV), a igreja medieval
modificou a visão que tinha da mulher. Identificaram em Maria, mãe de Jesus, a
figura adequada de mãe, esposa e virgem, levando à valorização do matrimônio,
sendo esta uma saída da visão pecaminosa, partindo para a submissão ao homem e
ao papel maternal. (LEAL, 2012, pp. 4-5). A mulher medieval era negligenciada
pelo homem, sua submissão assim como o seu silêncio impedia sua participação
ativa em sociedade e na construção de leis, viviam sobre o comando do pai,
depois do marido, se tornando dependente destes.
A posição da
mulher no período medieval limitava-se aos afazeres domésticos. As funções
públicas, políticas, administrativas e governamentais cabiam ao pai, marido ou
sogro. Até o século X as mulheres de famílias poderosas tinham autonomia na
escolha do parceiro, dividindo com ele as responsabilidades, podendo romper o
laço matrimonial se fosse herdeira de riqueza paternal. (MACEDO, 2002, pp.
9-10).
A condição da
mulher na sociedade germânica era de acompanhar os maridos em todos os perigos
e trabalhos. Essa condição não se tratava de igualdade, mas sim de
companheirismo e submissão. Quando em caso de adultério, o esposo era
encarregado de fazer cumprir a lei, cortando seus cabelos e a banindo do lar.
Nua na frente dos parentes era açoitada pela redondeza. O poder masculino
impossibilitava a atuação da mulher, mesmo esta possuindo riqueza, não podia
administrá-la e depois de casada perdia a herança paterna (MACEDO, 2002, pp.
11-13).
A moral cristã
do período Medieval limitava a sexualidade feminina condenando o prazer,
considerando o sexo apenas para procriação. O ato sexual denotava sua
inferioridade, portando-se de forma passiva, deitava-se de costas para o marido
e este sobre ela, não poderia demonstrar prazer sendo o ato sexual uma
obrigação, contrato matrimonial. A visão religiosa determinava que se o marido
a amasse excessivamente, seria um adúltero. O corpo feminino era uma
propriedade do homem, mas a alma pertencia a Deus, sendo assim não poderia o
homem tratar a mulher como prostituta, nem esta o esposo como amante. “Toda
mulher se alegra ao pensar no pecado e ao praticá-lo. Nenhuma é boa, se alguém
assim acha. Porque mulher boa é coisa ruim. E quase nada de bom existe nela”.
Este trecho retrata a reprovação da sexualidade feminina, apontando as mulheres
como fracas e portadoras do pecado. (MACEDO, 2002, pp. 20-44).
Em relação à condição
profissional das mulheres, também há retrato desta inferioridade. As mulheres
trabalhavam tanto quanto os homens e ganhavam menos que eles, suas condições de
trabalho eram ruins, sendo o sexo feminino a maior vítima de exploração.
Extensa era a área da produção da mulher ligando-se à indústria têxtil,
fabricação de metais, armaduras, agulheiras, ferreiras, padeiras, leiteiras,
peixeiras entre outras. (MACEDO, 2002, pp. 36-37).
Apesar da
restrita liberdade feminina do período medieval há registros de pensamentos de
mulheres na literatura: condessas, rainhas, religiosas, donas de casa que
romperam o silêncio e, através de poesias, expressavam seus desejos, indo além
dos estereótipos que a sociedade empregava ao papel feminino, expressando
através das escritas o prazer e a liberdade de pensar e sonhar. “Que não seja
considerado loucura, arrogância ou presunção de minha parte, eu, mulher, ousar
repreender e me impor a um autor tão sutil, quando ele, apenas homem, ousa
difamar e cobrir de infâmia todo um sexo”.
Trecho da poetisa medieval
Cristina de Pizan que usou seu entendimento intelectual para atacar os amantes
que desrespeitavam as damas. (MACEDO, 2002, pp. 79, 84).
1.2
A Mulher no século XX
No século XX, o contexto social que
a mulher pertencia era focado no ambiente familiar, cuidados com a casa e com a
família. Desde o princípio sua educação era embasada nos afazeres domésticos e
cuidados com a família.
A Revolução Industrial (1760 –
1900) gerou mudanças nas fábricas, dando um espaço para que as mulheres também
pudessem exercer uma função neste ambiente. Apesar de terem sido criadas leis
na Constituição Brasileira beneficiando as mulheres, a diferença de valorização
entre os salários de homens e mulheres era notável.
As mulheres trabalham em algumas coisas
especificamente femininas, em outras da família e outras ainda da oficina
familiar, em continuidade e sem grandes diferenças. Lendo-se qualquer texto
antigo sobre a mulher - e sem excluir as classes superiores – se pode ver que
revelam uma imagem de uma mulher enormemente laboriosa, por vezes
opressivamente laboriosa, a primeira que se levanta e a última que se deita, e
que não para. (MARÍAS, 1981, p. 36)
Como justificativa para esse ganho
maior nos salários dos homens, havia o discurso que apesar de as mulheres
exercerem uma função e receber uma remuneração por isto, quem as sustentava e
mantinha o lar era o homem e, devido a isto, eles deveriam receber uma
remuneração maior por seu trabalho. “A industrialização introduz uma mudança
profunda. Quando a oficina familiar desaparece o operário vai trabalhar em uma
oficina coletiva, e a mulher fica em casa, ou vai trabalhar como um operário a
mais. ” (MARÍAS, 1981, p. 36).
Outro pilar que também deve ser
levado em consideração dentro deste tema é o desejo de emancipação manifestado
pela mulher, diante de tantas mudanças históricas que ocorreram.
A mulher do século XX tinha seu
papel social como alguém dependente de uma figura masculina. Seja no início de sua
vida, dependendo de seu pai e após, quando se casava, dependendo de seu esposo.
Com isto, a mulher tinha algumas limitações legais, como por exemplo, a
obtenção de um passaporte ou conta corrente, que só poderia ser obtida, sob a
autorização de seu marido.
Assim como ganho de independência
esta emancipação traz consigo responsabilidades, inclusive econômicas. Com isso
a mulher passa a ter interesse em participar de diferentes áreas na qual ela
era vetada, como por exemplo, atividades políticas.
Não pode a mulher ter suas opiniões particulares,
não pode votar em quem queira? Inicia-se o movimento sufragista desde fins do
século XIX. [...] estabelece-se afinal o sufrágio verdadeiramente universal:
votamos homens e as mulheres, com poucas exceções. (MARÍAS, 1981, p.43)
Por mais que ela estivesse vivendo
este momento de mudanças em seu papel, a mulher naturalmente era educada para
os cuidados familiares e domésticos. Estas eram instruídas a ter habilidades e
refinamentos, porém quase nunca voltados para sua aplicação profissional. Com
isto os trabalhos por ela desempenhados, muitas vezes eram aqueles voltados
para o mesmo ambiente familiar no qual sempre viveram, ou seja, cuidados do
lar, cozinha, entre outras e estes, por sua vez, eram mal remunerados.
Com isto, passaram a entender que a
emancipação que tinha se dado início, deveria abranger outros fatores. A
escolaridade das mulheres era um ponto essencial para que estas pudessem
melhorar sua condição perante a sociedade e assim, conquistar espaço na área
profissional, sendo mais valorizadas.
O mais significativo e interessante de tudo isto é
que a mulher, cada vez mais está tendo acesso ao mesmo tipo de informação que
os homens, as mesmas leituras; começa a viver no mesmo mundo – histórico,
cultural, político, público – que os homens. (MARÍAS, 1981, p. 59).
A busca das mulheres e o ingresso
da classe feminina nas universidades é um grande marco e uma alavanca para a
inserção social e igualitária das mesmas.
De acordo com (BIASOLI-ALVES, 2000,
p. 237) da escolarização à profissionalização, há um caminho longo, ao mesmo
tempo em que natural. As pressões econômicas que a modernidade trouxe
constituíram fatores importantes, na determinação da alteração da perspectiva
relativa ao trabalho da mulher.
O feminismo se caracteriza pelos
movimentos das mulheres na luta pela igualdade social e de direitos como
cidadãs, indo contra o patriarcado e a dominação do homem, através da ação da
resistência e da organização. “Atualmente, o feminismo é um movimento social
que defende igualdade de direitos e status
entre homens e mulheres em todos os campos” (ALVES, 1991, p.15). Ao longo de
toda a história sempre houve mulheres que tinham uma ideia diferente do papel
estabelecido para elas até então. O primeiro movimento denominado Revolução
Feminista ocorreu nas últimas décadas do século XIX, quando as mulheres se
organizaram para lutar por seus direitos, que até então não eram vistos pelo
contexto imposto pela sociedade.
Segundo
Gonçalves (2006 p. 116), os revolucionários negavam o direito ao voto às
mulheres devido ao fato de elas serem “naturalmente” conservadoras. Vale
ressaltar também que no Brasil ainda na primeira chamada onda do feminismo,
teve sua atenção voltada ao movimento das operarias de ideologia anarquista,
que se posicionavam contra as organizações de partidos políticos divulgando
suas ideias contrárias (União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas). A
partir da década de 1930 tais movimentos foram perdendo força voltando somente
a se ressaltarem em 1960. (SOUZA, 2010, p. 116).
No Brasil a primeira luta
publicamente direcionada ao movimento feminista também se voltou para o direito
do voto. Este movimento foi inicialmente liderado por Bertha Lutz, bióloga e
cientista, que retornou ao Brasil em 1910, após ter estudado no exterior,
passando a ser uma das fundadoras da federação Brasileira pelo Progresso
Feminino. O direito ao voto foi conquistado posteriormente em 1932, quando se
deu início ao Novo Código Eleitoral brasileiro.
No final de 1931, durante o governo de Getúlio
Vargas, foi liberado um Código Provisório que permitia que as mulheres
votassem. Porém, possuía limitações para esse voto, o que acabou gerando novos
protestos. Assim, em 1932, com o novo Código Eleitoral sendo decretado, houve a
concessão do voto feminino (D’ALKMIN, 2006, p. 2).
Já no Brasil, no ano de 1964, houve
o chamado “Golpe Militar”, passando a ter maior relevância em 1968, quando a
ditadura militar passou a ministrar o país. Através de tais influências
causadas pela ditadura militar surgiram as primeiras manifestações feministas
no Brasil, já na década de 1970.
Tais movimentos trouxeram uma nova
visão do papel da mulher que era vista como submissa pela sociedade até então.
Através destes movimentos, as mulheres começaram a ir às ruas reivindicarem
seus direitos, tanto na participação política, quanto ao mercado de trabalho.
O movimento de mulheres no Brasil
ainda traz alguns estereótipos. Passados vários anos desde o início de tais
movimentos, algumas mulheres ainda relatam que sofrem desigualdade de gênero,
por conta do contexto histórico imposto pela sociedade. Em 1980, as mulheres apareceram
com grande força nas centrais sindicais.
Os anos 90 são marcados pelos grandes
números de espaços feministas que se multiplicaram, sendo seus grupos de
classes sociais muito diversos.
Em 1994, o
início dos preparativos para a IV Conferência Mundial das Mulheres, realizada
em 1995, proporcionou excelente oportunidade para o fortalecimento dos
movimentos feminista e de mulheres. Inúmeros grupos feministas e centenas de
grupos de mulheres construíram uma diversa e complexa rede de cooperação para a
preparação da Conferência, de proporções realmente nacionais. Estavam incluídas
as organizações de mulheres negras, movimentos de mulheres urbanos e rurais,
grupos das periferias das cidades, trabalhadoras das centrais sindicais,
organizações de lésbicas, sindicatos de empregadas domésticas, feministas
acadêmicas, associações de prostitutas, entre outras (SOARES, 1995, p. 47).
Ao estudar o movimento feminista no
Brasil pode-se dizer que este vem alcançando fortes impactos sociais, tanto nas
mudanças de leis, quanto na expansão da participação feminina em diferentes
contextos. Abrindo espaços para integrar novas atribuições, direitos e deveres
às mulheres que passam, a partir de então, a obter uma postura mais ativa na
sociedade, mostrando seus potenciais e exigindo a valorização destes.
No século XXI, a mulher conquistou
a igualdade jurídica perante a sociedade, contudo a figura feminina continua sendo
ignorada em papéis sociais. Atualmente, o papel que a mulher ocupa na sociedade
demonstra consequências de fatos históricos, num círculo social que estabeleceu
regras e posições.
A mulher contemporânea além de mãe,
profissional e esposa, encontra tempo para cuidar também de si. No século
passado no âmbito profissional, os cargos governamentais eram executados
somente por homens, atualmente destacam-se mulheres no poder; nesse setor
profissional.
As mulheres têm denunciado o alto custo que elas pagam por
competir no espaço dos homens: Enquanto estes contam, de certo modo, com uma
infraestrutura de apoio, seja financeira, sejam apenas psicológicas, para
competir no mercado de trabalho, as mulheres devem provar duas vezes mais do
que são capazes, além de continuar a desempenhar as funções de mãe e de rainha
do lar, exigidas tanto pelos maridos, quanto pelos filhos e familiares. (RAGO,
1996, p.199).
Esse século é marcado pela mulher, com
mais desafios e acúmulo de funções, tendo que equilibrar as realizações de seus
sonhos e, a realidade pela qual sobrecarrega seu papel exercido na sociedade.
Alcançaram novas posições e cargos, em um processo que está gerando uma
profunda mudança na sociedade. O século XXI traz uma nova identidade para a
mulher:
[...] em busca de independência econômica, é
mais individualista em seu projeto de vida, investe mais tempo na formação
escolar e profissional, busca pós-graduação, cursos no exterior e experiência
de vida em geral. O casamento é adiado, já não vem necessariamente em primeiro
lugar. (BERTOLINI, 2002, p. 20).
Apesar
das conquistas e das contribuições femininas no contexto social ainda,
atualmente, existem estigmas sociais, que consideram a mulher frágil e
secundária ao sexo masculino, não devendo esta, ocupar o mesmo patamar e se
beneficiar dos mesmos direitos e deveres políticos e trabalhistas. No século
anterior, a classe profissional apresentava resistência em aderir as mulheres,
por considerar o período de gestação um prejuízo, já que as empresas devem
manter a remuneração da mulher durante a licença maternidade.
Devido ao crescimento das indústrias farmacêuticas que têm investido em métodos contraceptivos, estas proporcionaram à mulher, a opção de ter ou não um filho, além de haver atualmente uma infraestrutura como creches, instituições e programas de auxílio à mulher. Com isso possibilitou que a mulher também pudesse exercer a chefia da família, tornando-se provedora do lar. Deixou de ser submissa ao homem para se tornar aliada deste, exercendo seu papel transformador, reconhecendo sua importância na sociedade e quebrando paradigmas patriarcais.
Devido ao crescimento das indústrias farmacêuticas que têm investido em métodos contraceptivos, estas proporcionaram à mulher, a opção de ter ou não um filho, além de haver atualmente uma infraestrutura como creches, instituições e programas de auxílio à mulher. Com isso possibilitou que a mulher também pudesse exercer a chefia da família, tornando-se provedora do lar. Deixou de ser submissa ao homem para se tornar aliada deste, exercendo seu papel transformador, reconhecendo sua importância na sociedade e quebrando paradigmas patriarcais.
A Síntese de
Indicadores Sociais, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2007,
aponta que as mulheres brasileiras de hoje, apesar de terem seus direitos
garantidos pela Constituição, percebem que há um longo caminho para conquistar.
Para se ter uma noção da população das mulheres, basta saber que elas
representam mais da metade da população brasileira. De acordo com estes
indicadores, a população brasileira em 2006 era de 187,2 milhões de habitantes.
Desse total, 96 milhões eram mulheres. O aumento da população de mulheres em
relação a homens é característico da tendência demográfica do Brasil, mas, no
entanto, as pesquisas atuais, demonstram o aumento da população feminina em
relação à masculina. Para confirmar tais indicadores, deve-se citá-lo na
afirmação a seguir:
Segundo a Síntese de Indicadores Sociais, entre 1996
e 2006, o percentual de mulheres responsáveis pelos domicílios aumentou de 10,3
milhões para 18,5 milhões. Em termos relativos, esse aumento corresponde a uma
variação de 79%, enquanto, neste período, o número de homens “chefes” de
família aumentou 25%. Este indicador nos mostra que o aumento da “chefia”
feminina ocorreu principalmente nas famílias compostas por casal com ou sem
filhos. É interessante pensar em alguns fatores que influenciam o aumento do
número de mulheres responsáveis pelo domicílio. (IBGE, 2007).
O aumento do número de mulheres
responsáveis por residências é maior, assim como a participação no mercado de
trabalho e, consequentemente, a contribuição para o rendimento da família.
Nesta síntese de indicadores, o nível de ocupação das mulheres subiu quase
cinco pontos percentuais, ao contrário dos homens, em que ocorreu uma redução,
por volta de um ponto percentual. Hoje as mulheres têm maior expectativa de
vida, em caso de morte do companheiro, ou nos casos de casamentos desfeitos, a
mulher, separada do marido, torna-se responsável do lar e também pelas
necessidades dos filhos.
A participação das mulheres no
mercado de trabalho continua em ascensão, tanto na formalidade, quanto na
informalidade. Nos últimos 20 anos, as mulheres tiveram mais destaque do que os
homens no crescimento da população economicamente ativa.
A
evidência da participação feminina ocorreu, no entanto, conforme (MENEZES,
2002, p.7), num contexto marcado por profundas transformações no mercado de
trabalho, o que tem se traduzido “numa crescente flexibilização dos vínculos
empregatícios e na ampliação dos contingentes de trabalhadores informais, bem
como na elevação das taxas de desemprego no final da década”.
Em
busca desta nova identidade a mulher neste século prioriza a constituição
intelectual, procura estudar e percorrer o caminho da independência financeira,
postergando o matrimônio e a maternidade. Investe na carreira profissional para
desempenhar um papel mais ativo em suas escolhas, no planejamento de seu futuro
pessoal.
De
acordo com o IBGE de 2010 “as mulheres são mais instruídas que os homens e
ampliam, a cada dia que passa, o nível de ocupação na sociedade, ou seja,
cresce a participação feminina no mercado de trabalho”. Se por um lado,
portanto, os homens ainda são maioria, por outro, as mulheres já ocupam
posições importantes e, ao mesmo tempo, aumentam sua presença em todas as áreas
de conhecimento, fato que antes, era mais associado a área da educação.
A
participação das mulheres em cargos governamentais, nas organizações e ocupando
altos cargos, vem de uma longa trajetória que as mulheres têm percorrido para adquiri-los,
contudo segundo o IBGE (2007), a remuneração de trabalho das mulheres, continua
sendo inferior à dos homens, ou seja, mesmo um século permeado de mudanças e
conquistas, ainda se faz visível a diferença entre os sexos. Atualmente a busca
da mulher no contexto profissional vai ao encontro do reconhecimento das
aptidões desenvolvidas pela mesma e a diferença de remuneração.
A
era das mulheres depois de desbravar suas conquistas impõe uma tarefa ainda
mais difícil: “A maior diferença entre a mulher do século anterior e deste é
que a primeira reivindicava seu lugar, enquanto a atual tem que conquistar esse
lugar”. (FORBES, 2008, p. 2). Ocorre uma transformação na imagem tradicional da
mulher, nesta era, se faz mediadora do próprio universo, livre, consciente e
responsável por cada momento de sua existência.
O papel da mulher durante o período
da Idade Média e o século XX era focado para o matrimônio, com o propósito de
se dedicarem ao lar, ao marido e, aos filhos. Essa realidade encontrou uma
ruptura apenas recentemente no curso da história. Os papéis tradicionais se
configuraram em novas posições sociais. A mulher atual tem seu objetivo voltado
para as conquistas profissionais. Com todas essas mudanças apresentadas, o
desejo de serem amadas não foi renunciado, suas relações com o amor são
diretamente influenciadas pelo imaginário. Os contos de fadas foram
desenvolvidos ao longo da história trazendo em seus conteúdos mensagens de
ideais e representações de comportamento que, representavam de maneira exemplar
a mentalidade pragmática da época. Nos contos de Cinderela e, a Bela
Adormecida, as personagens apresentam comportamentos que se esperavam das mulheres
da época da Idade Média e do século XX, tais como: submissão e idealização de
um amor e, os ideais da burguesia: patriarcado e valorização do status social.
A partir dos contos clássicos, é
possível perceber que os atributos das personagens femininas se apresentam com
a mesma regularidade: o respeito às leis estabelecidas e, impostas por uma
sociedade patriarcal. As personagens são ingênuas, belas e desprotegidas, na
qual se faz necessário a figura masculina para protegê-las contra o perigo do
mundo.
A mulher tradicional se apresenta
com um papel forte e dona de si, assim como se apresenta a personagem no conto
de a Bela e a Fera, que sai em busca de seu próprio destino, indo contra os
estigmas sociais atribuídos ao papel da mulher, em que esta deveria se
comportar de forma passiva. Ainda que a mulher atual tenha conquistado
autonomia na vida profissional, sexual e familiar, tornando-se donas de si, do
seu corpo e de suas decisões, o ideal amoroso permaneceu, assim como, o
imaginário em que a mulher ainda deve ser sensível, bonita, dedicada ao outro e,
sonhando com um amor verdadeiro, mesmo que representado pelo sentimento
fraterno. Assim como será apresentado, no capítulo a seguir:
Capítulo II:
Contos e Feminilidade
2.1 Contos
Os
contos de fadas têm sido transmitidos de geração em geração, pois através deles
é possível identificar situações e sentimentos da vida cotidiana. Embora os
personagens não sejam reais, os autores dos contos captam mensagens que
permeiam no contexto social.
Os
contos de fadas influenciam na formação da personalidade, pois além de
despertar a curiosidade, competências cognitivas e verbais, permite criar
imagens mentais, estimulando a fantasia e a imaginação, ajudando as crianças a
elaborar seus sentimentos de medo, frustração, abandono, rejeição, rivalidade,
inveja, inferioridade e vingança, transmitindo também valores culturais e
definindo papéis na sociedade. “Os contos de fadas, à diferença de qualquer
outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta de sua
identidade e comunicação e, também sugerem, as experiências que são necessárias
para desenvolver ainda mais o seu caráter”. (BETTELHEIM, 2002. p. 23, 36).
O
autor apresenta que as experiências da maior parte da história da humanidade,
dependem das experiências dos contos de fadas, respondendo questões importantes,
em seu processo de socialização, fornecendo os conteúdos em que o indivíduo
forma os conceitos de ideais sociais, que define um padrão cultural. Esses
contos são resultados de mensagens conscientes e inconscientes, do consenso de
várias pessoas, considerando-se os problemas humanos universais.
Tanto
Freud quanto Jung utilizaram-se dos contos de fadas para simbolizar conteúdos
internos do inconsciente e consciente contemplando os aspectos do id, ego e
superego (BRITO, 2000, p. 30).
Os
psicanalistas freudianos se preocupam em mostrar que tipo de material reprimido
ou de outro modo inconsciente está subjacente nos mitos e contos de fadas, e
como estes se relacionam aos sonhos e devaneios. Os psicanalistas junguianos
frisam, em acréscimo, que as figuras e os acontecimentos destas estórias estão
de acordo com (e, por conseguinte representam) fenômenos psicológicos
arquetípicos, e simbolicamente sugerem a necessidade de ganhar um estado mais
elevado de autoconfiança - uma renovação interna que é conseguida à medida que
as forças pessoais e raciais inconscientes tornam-se disponíveis para a pessoa.
(BETTELHEIM, 2002, p. 37).
Freud (apud BRITO, 2000, p. 30) destacou em sua experiência
clínica que as narrativas populares se referem à parte mais primitiva do
psiquismo, onde algumas pessoas encobrem nos contos favoritos lembranças da
própria infância transformando os contos em lembranças encobridoras, que
interpretadas em suas passagens, faz o paciente produzir o conto significativo
como associação (BRITO, 2000, p. 30).
Jung (apud BRITO, 2000, p. 34), por sua vez, também se
utilizou dos contos de fadas para abordar questões relacionadas à existência
humana inconsciente. Em sua teoria ele postula as imagens arquetípicas, levando
o ser humano ao processo de individuação, criando possibilidades de
continuidade na existência. Ele utiliza-se dos contos motivado pela questão do
simbolismo universal e arquetípico, como parte influenciadora no processo de
individuação. Jung aponta as narrativas como sendo um tesouro da humanidade
para atravessar momentos de crise, sendo as expressões arcaicas dos arquétipos
do inconsciente coletivo. Na teoria analítica o homem herda essas imagens que
são transmitidas de seus ancestrais, tanto humanos como animais, sendo a
predisposição para lidar e se comportar no mundo tal como os antepassados.
(BRITO, 2000, p. 34).
Por sua vez, os conteúdos do inconsciente coletivo, chamados de arquétipos, estimulam um padrão
pré-formado de comportamento pessoal, que o indivíduo seguirá desde o dia do
seu nascimento. São de natureza universal, o que justifica a crença defendida
por Jung de que todos os homens herdariam as mesmas imagens arquetípicas
básicas. (BRITO, 2000, p. 35).
Sendo assim, é possível constatar que os contos definem e
transmitem uma mensagem cultural e social de padrões de conduta e definição de
papéis, portanto, tomando parte destas descrições apresentadas, num dos
principais contos de fadas, o de: Cinderela, na Bela Adormecida e na Bela e a
Fera; outros contos famosos, observa-se os conceitos psicanalíticos da
constituição da formação da mulher no conceito edípico, assim como em sua forma
subjetiva de estar no mundo.
Freud (1924) utilizou a mitologia
grega de Édipo Rei para fundamentar um conceito incontestável, o complexo de
Édipo, que se caracteriza pelo desejo de morte ao rival do mesmo sexo e o
desejo sexual ao sexo oposto. Sendo assim, os meninos sentem-se atraídos pela
mãe e as meninas pelos pais, repudiando os do mesmo sexo, sentindo uma
ambivalência de desejos de amor e ódio em relação aos pais.
Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é
vivido entre os três e os cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio
marca a entrada no período de latência. É revivido na puberdade e é superado
com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de
Édipo desempenha o papel fundamental na estruturação da personalidade e na
orientação do desejo humano. (LAPLANCHE E PONTALIS 1992, p. 77).
A teoria de Freud (1924) sobre o complexo de
Édipo afirma que a criança entre os 3 e 5 anos vivendo na fase fálica, do
desenvolvimento psicossexual, cheia de erotização, porque a libido se concentra
na região genital. Nesta fase a criança percebe uma relação entre seus pais, da
qual não faz parte. E começa a vivenciar uma relação triangular com os mesmos,
gerando sentimento de ciúmes, raiva e inveja. Este período é marcado por
impulsos sexuais na relação deste com o sexo oposto e, desejando eliminar estes
impulsos, em relação aos de mesmo sexo.
Na fase fálica,
em que a criança vivencia o Complexo de Édipo, os desejos edípicos, cheios de
rivalidade existentes, podem trazer um enorme conflito devido aos intensos sentimentos
de ódio, inveja e competição hostil, todos amplificados por identificações e
desejos de amor por cada um dos pais (TYSON e TYSON, 1993, p. 220).
Nos conflitos edipianos, para o
menino, o pai é empecilho para obter o amor e atenção exclusiva da mãe. Nos
contos de fadas o pai é representado pelo dragão, o qual impede o menino de
conquistar a princesa (mãe) para si. Podemos observar a abordagem do conteúdo
do complexo de Édipo no desejo de aniquilar o mesmo sexo e a conquista
exclusiva do sexo oposto, que se camufla na imagem do dragão aliviando o
sentimento de culpa que a criança experimenta na problemática. Redirecionando
seus desejos de ódio em relação ao pai para o dragão.
Os detalhes podem diferir, mas a trama básica é
sempre a mesma: o herói improvável se revela matando dragões, resolvendo
charadas e vivendo através de sua esperteza e bondade até que finalmente
liberta a linda princesa, casa-se com ela e vive feliz para sempre. Um menino
sempre se vê neste papel principal. A estória dá um cunho de veracidade ao
sentimento do menino de que a mais desejável das mulheres está presa por uma
figura malvada, enquanto implica que não é a mãe que a criança deseja para ela,
mas uma mulher maravilhosa e magnífica que ainda não encontrou, mas de certo o fará.
(BETTELHEIM, 2002, p.141)
Nas histórias, filhos não são
mencionados, elas terminam com os “felizes para sempre”, ter um bebê implicaria
em dividir a mãe ou o pai com terceiros, algo que vai contra o complexo que
simboliza ter os pais só para si e nunca se separar deles. Os problemas
edípicos nas meninas são observados no contexto onde uma mulher bem mais velha
atrapalha sua conquista, nos contos a temática é abordada na madrasta,
projetando a mãe ruim internalizada que impede a menina de ter um contato com
seu pai ou de obter seu amor verdadeiro.
A menina deseja ver-se como uma jovem linda - uma
princesa ou semelhante - que está presa pela figura feminina malvada e egoísta,
por conseguinte sem acesso ao homem amante. O pai real da princesa cativa é retratado
como benevolente mais incapaz de vir em socorro de sua filha adorável. Em
"Rapunzel" é uma promessa que o bloqueia. Em "Cinderela" e
"Branca de Neve" ele parece incapaz de se defrontar com a madrasta
todo-poderosa. (BETTELHEIM, 2002, p.144)
A madrasta, em diversos contos,
sente ciúmes e inveja da moça jovem pura e merecedora do amor verdadeiro, este
conteúdo possibilita as meninas, a se sentirem prediletas e sem culpas pelo
amor completo do pai. A competição pela atenção e o desejo de assumir o papel
da mãe que a madrasta ocupa como figura, impede a concretização do desejo de
ódio atribuído à progenitora que impede seu caminho para a felicidade.
Assim, tanto as meninas como os meninos edípicos,
graças aos contos de fadas, podem ter o melhor dos dois mundos: podem gozar
plenamente as satisfações edípicas na fantasia, e na vida real manter boas
relações com os dois pais. Para o menino edípico, se a mãe o decepciona, existe
a princesa dos contos de fadas no fundo de sua mente aquela mulher maravilhosa
do futuro que compensará todas as labutas presentes, e cuja lembrança torna
mais fácil suportar estes esforços. Se o pai dá menos atenção à filha do que
ela deseja, ela pode suportar esta adversidade porque chegará um príncipe a
quem ela preferirá mais que a todos os outros rivais. (BETTELHEIM, 2002, p.145)
O ato de solucionar as malvadezas é
concretizado nos contos e proporciona à criança a oportunidade de depositar
seus sentimentos de raiva na fantasia, e também a ajuda a vencer a angústia
edípica e atribuir valores ao seu desenvolvimento. Os contos de fadas
proporcionam papéis para as crianças se identificarem com os personagens
marcantes na história através de situações e conflitos que precisam ser
resolvidos e podem ter sidos recalcados atrás da não elaboração.
Freud (1923) utilizou o termo identificação, sendo este definido por ele
como um mecanismo de defesa em que o indivíduo assimila um
aspecto, uma característica de outro, e se transforma, total ou parcialmente,
apresentando-se conforme o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e
diferencia-se por uma série de identificações, como característico do trabalho
do sonho, o processo que traduz a relação de semelhança, o “tudo como se”, por
uma substituição de uma imagem por outra ou “identificação”. A identificação
não tem aqui valor cognitivo: é um processo ativo que substitui uma identidade
parcial ou uma semelhança latente por uma identidade total. Um exemplo a ser
utilizado é quando o menino, para conquistar o amor da mãe, vê em seu pai um
modelo de representação ideal a ser seguido.
Já o termo projeção descrito por
Freud (1923) é o mecanismo de defesa na qual o indivíduo atribui aspectos
pessoais ou sentimentos inaceitáveis a outro alguém, sendo estes pensamentos
reprimidos e inconscientes.
O primeiro registro que se tem do conto
Cinderela, é do século IX na China. Há diversas versões para este conto. Variações
diversas, porém uma particularidade que se mantém é o detalhe dela ser
reconhecida através do sapato, que é o fator que mais remete ao conto. Entre as
versões existentes a mais conhecida é a de Charles Perrault no ano de 1967, que
é baseada no conto “a gata borralheira”. Quando analisado com ótica
psicanalítica, a personagem de Cinderela é vista com muita inocência e, apesar
de sofrer maus tratos por sua madrasta e suas meias-irmãs, não tem o sentimento
de rancor por estas. Por mais que seja simples é uma moça de grande beleza, ou
seja, uma personalidade idealizada, (BORGES, 2007, p. 243). Dentre outras
características que se pode notar na personalidade da personagem, há aspectos
que podem ser vistos em algumas mulheres atualmente, apesar da evolução dos
tempos e da independência que a mulher moderna conquistou. Algumas dessas
características são:
A valorização do status social do parceiro: Cinderela tem um encantamento pelo status do príncipe. Hoje em dia algumas
mulheres julgam este fator como algo a ser levado em consideração na hora de
escolher um parceiro para se relacionar por mais que sejam independentes e
financeiramente estabilizadas. Um traje foi eleito para a conquista: Cinderela
utiliza-se deste artifício para chamar a atenção do príncipe no baile. Durante
a conquista o fator visual é algo levado em grande consideração a uma primeira
aproximação, (BORGES, 2007, p. 243). Mesmo com o desejo da aproximação, Cinderela
espera a atitude do príncipe, a aproximação: sabe-se que com a conquista de
espaço, a mulher moderna tem feito da iniciativa da aproximação no parceiro
algo comum, mas há ainda as que preferem ser tradicionais e esperar pela
aproximação do homem, ainda que também demonstrem interesse. O romance entre os
personagens ocorre de uma forma imediata: vivemos em uma época onde tudo é
muito expresso, os relacionamentos fazem parte desta categoria. O se relacionar
e o romper rapidamente tem se tornado um hábito comum de alguns indivíduos, que
não veem problema algum em se relacionar desta forma. A resolução dos problemas
de Cinderela vem pelo ato de casar e, que consequentemente encontra o seu
“feliz para sempre”: apesar de ser mais comum antigamente, na atualidade, ainda
há pessoas que repetem este comportamento e veem a vida matrimonial, como uma
solução para algumas questões cotidianas, buscando em seus parceiros e no
casamento a consumação de uma vida plena e feliz. (BORGES, 2007, p. 243).
Dentre os aspectos apresentados, nota-se
que, mesmo com a modernização de alguns fatores, com a evolução da sociedade e
da conquista de independência da mulher há comportamentos que ainda permanecem
de forma inconsciente.
A idealização apresentada pela personagem
remete ao que Freud (1923) postulou na dinâmica amorosa, em que o investimento
libidinal quando depositado no objeto, torna o eu apaixonado frágil e
dependente deste objeto amado.
O objeto sexual é elevado ao nível do ideal, já que
possui o que falta ao eu para alcançar seu próprio ideal. O trabalho de
idealização outorga ao objeto virtudes e perfeições imaginárias, deixando
“cego” o eu apaixonado. E na medida em que o objeto é colocado no lugar do
ideal, o amante torna-se um humilde servo do objeto idealizado. Através da
idealização do objeto de amor, e da aspiração de união com ele, o “eu” pretende
a fusão narcísica, a completude. (LEJARRAGA, 2000, p. 1).
Sendo assim a mulher ao idealizar o homem
com aspectos de força superior, esvazia-se e perde sua essência, ficando à
mercê dos estereótipos sociais e à alienação, vendo no outro uma figura de
poder, tornando-se vulnerável e dependente nesta relação.
2.4 A
Bela Adormecida
No conto A Bela Adormecida, a personagem se mostra em uma postura passiva. Ela cativa o príncipe com sua postura inerte no estado de “quase morta”. Sua vida depende exclusivamente da atitude do príncipe, sem o controle do seu corpo. Seu destino está traçado desde seu nascimento, pela feiticeira que se sentiu menosprezada, por não ter sido lembrada e convidada para a cerimônia de seu nascimento. Por mais medidas preventivas que os pais de Bela providenciaram para livrar a filha do encanto, seu percurso se dá naquilo que inicialmente já estava predestinado (CORSO e CORSO, 2005, pp. 85-87). Assim se define a postura de muitas mulheres no amor, que permanecem aprisionadas às definições atribuídas pela sociedade, ao papel feminino, no período da Idade Média, em que os homens deveriam tomar a iniciativa para a conquista e que, mulher atraente, é aquela que fica em uma posição inerte à espera do cortejo.
No conto A Bela Adormecida, a personagem se mostra em uma postura passiva. Ela cativa o príncipe com sua postura inerte no estado de “quase morta”. Sua vida depende exclusivamente da atitude do príncipe, sem o controle do seu corpo. Seu destino está traçado desde seu nascimento, pela feiticeira que se sentiu menosprezada, por não ter sido lembrada e convidada para a cerimônia de seu nascimento. Por mais medidas preventivas que os pais de Bela providenciaram para livrar a filha do encanto, seu percurso se dá naquilo que inicialmente já estava predestinado (CORSO e CORSO, 2005, pp. 85-87). Assim se define a postura de muitas mulheres no amor, que permanecem aprisionadas às definições atribuídas pela sociedade, ao papel feminino, no período da Idade Média, em que os homens deveriam tomar a iniciativa para a conquista e que, mulher atraente, é aquela que fica em uma posição inerte à espera do cortejo.
No amor, a mulher parece se colocar sempre o dilema de que será bela
enquanto se fingir de morta. Ela própria tende a narrar, para si e para os
outros, uma situação amorosa dando ênfase no impacto que produziu no outro, no
desejo que suscitou, mais que daquele sentido por ela. Embora as mulheres
modernas possam incluir seu desejo no relato do desenlace de uma cena de amor,
ou seja, dirão se sentiram interesse ou não, a movimentação dos atores tenderá
a que ela seduza e ele conquiste. Mesmo que esses papéis amorosos sucumbam ao
grande questionamento que vêm sofrendo nos últimos anos, a questão da
passividade e da atividade conserva sua atualidade. (CORSO e CORSO, 2005, p.
87).
Sendo assim, da forma que se define a posição de Bela o seu
destino é conduzido pelos outros desde o seu nascimento, não tendo ela nenhum
poder de decisão sobre sua vida, sempre vulnerável ao desejo do outro. “Não há
melhor resposta para o desejo de ser desejado que o fato de ser escolhido
quando não tínhamos intenção de seduzir” (CORSO, 2005, p. 87). Por outro lado,
ela usa da sua beleza como artimanha na conquista do príncipe que com sua
postura, entregue aos desejos do homem, mesmo que esta ação não tenha se
passado no plano da consciência, foi um instrumento de conquista e encanto,
motivo este, que fez com que o príncipe se apaixonasse perdidamente a ponto de
querê-la para si, em um sentido de possuí-la.
Assim,
uma menina gostaria de perceber o impacto de seus encantos sobre o pai sem que
tivesse de passar pelo constrangimento de seduzi-lo, ou de entrar em qualquer
disputa com a bruxa da sua mãe. Dessa forma, a passividade passa a fazer parte
da cena erótica humana, mais enquanto uma fantasia que uma posição propriamente
dita. É também enquanto fantasia que a passividade assumiu lugar privilegiado
na erótica feminina, traduzindo-se num intenso desejo de ser desejada,
arrebatada e possuída sem ter de fazer nada para provocar a cena. (CORSO e
CORSO, 2005, p. 87).
A
passividade refere-se aos processos mentais internos que se dá, na falta de
energia, para uma ação interna voltada para o exterior. O conto, a Bela
Adormecida, permite ao adolescente em sua passagem pela puberdade, a não se
angustiar em seu período inativo, pois assim compreende que durante este seu
processo, as coisas continuam a acontecer, lhe assegurando também de que este
momento é passageiro e, quando despertar, terá adquirido experiência e
maturidade para tomar suas próprias decisões. O conto transmite a mensagem de
que após um período de calma e contemplação do eu pode levar às grandes
conquistas. (BETTELHEIM, 2002, p. 241).
Quando
se torna uma adolescente, a menina explora áreas de existência previamente
inacessíveis, representadas pelo quarto oculto onde a velha está fiando. Neste
ponto a estória está plena de simbolismos freudianos. Quando ela se aproxima do
lugar fatídico, sobe por uma escada circular. Nos sonhos estas escadas
representam tipicamente experiências sexuais. No alto desta escadaria ela encontra
uma portinha com uma chave na fechadura. Quando gira a chave, a porta "se
abre" e ela entra num quartinho onde uma velha está fiando. Um quartinho
trancado costuma representar em sonhos os órgãos sexuais femininos e o giro de
uma chave na fechadura simboliza a cópula. Ao ver a velha fiando, a mocinha
pergunta: - "Que coisa é esta que salta de modo tão engraçado?" - Não
é preciso muita imaginação para ver as conotações sexuais possíveis para o
fuso; mas, logo que a menina toca nele, espeta o dedo, e cai adormecida.
(BETTELHEIM, 2002, p. 248).
As
estórias definem diferentemente as passagens desta fase de amadurecimento do
feminino e do masculino, como na Branca de neve e a Bela Adormecida, em que as
princesas passam por este período em um momento inerte, em que sua beleza fica
sendo contemplada e admirada, mas estas não têm o domínio sobre si, enquanto os
meninos têm que lutar com dragões e feras, para conquistar o lugar do trono ou
casar-se com uma donzela, que geralmente está em perigo que o príncipe a livra
e a toma para si.
Muitos
príncipes tentam alcançar Bela Adormecida antes de terminar sua maturação,
todos os pretendentes prematuros perecem nos espinheiros. Com isto, o conto
adverte à criança e aos pais que o despertar do sexo antes da mente e do corpo
estarem prontos para ele é muito destrutivo. Mas quando Bela Adormecida
finalmente adquiriu maturidade física e emocional, e está pronta para o amor,
e, por conseguinte para o sexo e o casamento, então o que antes parecera
impenetrável se abre. O muro de espinhos subitamente se transforma numa cerca
de flores grandes e belas que se abre para o príncipe entrar. (BETTELHEIM,
2002, p. 248).
Esta
mensagem traduz a importância da maturidade subjetiva que acontece para cada
mulher em seu período específico, único de cada uma, em que a concretude dos
processos externos se dá somente depois de uma preparação interna. Somente esta
é responsável pela sua transformação, em solucionar o conflito intrapsíquico
para um despertar harmonioso, podendo então seguir em frente e se tornar
responsável por suas decisões.
2.5
A Bela e a Fera
O conto A “Bela e a Fera” originou-se do mito de Eros e
Psique onde a personagem Bela rompe o padrão de conduta da mulher submissa.
Bela se apresenta atenciosa aos mordomos do castelo e repudia os interesses
materiais, tendo afinidade pela natureza e a vida simples do campo.
Bela é uma linda moça, filha de um inventor e morava com ele
e mais duas irmãs, sendo que na estória, a figura materna não se apresenta.
Durante uma viagem o pai da moça se perdeu, perseguido por lobos, acabou indo
parar em um castelo escuro onde se refugiou. No castelo morava um príncipe que
por conta de seu egoísmo, foi amaldiçoado, por negar ajuda a uma feiticeira que
o transformou em uma fera. O feitiço dirigiu-se também à todos os empregados do
castelo que se tornaram objetos. O feitiço tinha um limite de tempo que se dava
no desabrochar de uma rosa encantada, assim se ele amasse alguém e esse amor
fosse retribuído antes da última pétala cair, voltaria a ser príncipe novamente,
quebrando o encanto, caso o contrário, estaria condenado a ser fera
eternamente. A fera ficou irada ao perceber a presença do intruso e fez deste
seu prisioneiro. Quando Bela se deu conta do desaparecimento do pai, montou em
seu cavalo e saiu em sua procura, quando o encontrou se ofereceu para tomar o
lugar de prisioneira, já que o pai estava com a saúde fragilizada. Fera aceitou
libertando o pai de Bela que voltou para seu lar, sofrendo por ter deixado Bela
à mercê da fera, o que fez com que sua saúde piorasse ainda mais. (PIRES e
FACCHIN, 2010, p. 3).
Bela se tornou amiga dos serviçais e estava vivendo feliz no
castelo, mas ao descobrir o estado de saúde em que o pai se encontrava, pediu à
Fera que lhe permitisse uma visita, prometendo retornar ao castelo. Fera
aceitou a proposta da moça, confiando em sua palavra. Gaston, um homem da
cidade, que cortejava Bela, aproveitou a saída da moça do castelo e invadiu a
moradia da fera, iniciando uma briga violenta com o monstro. Quando Bela
retornou encontrou Fera muito ferido, debruçou-se por cima dele e pôs-se a
chorar, pois a essa altura a moça já havia se apaixonado pela fera. Quando Bela
lhe declarava seu amor, enquanto a última pétala caía, o feitiço começou a se
desfazer, tornando o animal um príncipe novamente, assim como todas as
criaturas do castelo, voltaram a ser humanos. (PIRES e FACCHIN, 2010, p. 3).
Durante o desenrolar da história é
possível perceber os três estágios do desenvolvimento da personagem: o
narcisismo, passagem do feminino e o Complexo de Édipo. O narcisismo aparece no
início da história quando Bela nega seus pretendentes e tem sua beleza,
apreciada por esses. Estava interessada somente em seus próprios interesses,
desejando a vida do interior, ignorando os desejos alheios. O narcisismo se dá
no mito de Narciso, em que sua paixão por si, mesmo o deixou obcecado por sua
própria imagem na água, liberando suas pulsões sexuais, o que o levou a morte,
definhando à espera do retorno daquele amor. (PIRES e FACCHIN, 2010, p. 4).
O
palácio da Fera representa as fantasias narcisistas típica de crianças. O
castelo negro e vazio, por sua vez, é um "símbolo feminino impessoal,
[...] corresponde a um aspecto específico da imagem materna", referente à
relação intrauterina (FRANZ, 1985, p.74).
Gaston também interpreta um personagem narcisista, egoísta,
que parte em busca da vingança, movido pelo ego ferido, pela rejeição do amor
de Bela, enquanto que Fera apresenta o narcisismo, quando se nega a ajudar a
senhora, que o puniu, transformando o príncipe em um animal repugnante.
De
toda forma, o mito de Narciso mencionado anteriormente reflete bem o que pode
acontecer com quem não transfere sua energia do Eu ao mundo exterior, assim
como para Bela só seria exequível conquistar seus sonhos quando se libertasse
do Narcisismo e do Complexo de Édipo e colocasse seu desejo como algo passível
de realização, amando outra pessoa, outro homem. E ela se esforçará para isso
no decorrer da história. (PIRES e FACCHIN, 2010, p. 5).
Bela está extremamente ligada a seu pai. O fato da figura
materna não aparecer na história evidencia que assim não há competição pelo
amor paterno. A falta de uma identificação feminina e a forte relação com esse
homem traz, como consequências, aversão de Bela por outras figuras masculinas.
Com Fera também esse repúdio ocorreu inicialmente, quando Bela se uniu à Fera
acreditando que este ato a devia da preocupação por seu pai, que na tentativa
de manter a simbiose com a filha, implorou à Fera que a poupasse. No entanto,
ao negar-lhe o desejo, Fera rompe com o Complexo de Édipo. (PIRES e FACCHIN,
2010, p. 6).
Bela ao montar em seu cavalo foi movida pela força interna
inconsciente e sua determinação, à levou em busca de sua transformação e à
aquisição do amadurecimento, deixando de ser a “filhinha do papai”, para se
envolver sexualmente com outra figura masculina, quebrando com esta relação
edípica estabelecida na infância.
Nesse
jogo de aproximação e afastamento, Bela, logo no início de sua estada no
castelo, tentou fugir e fora atacada por um bando de lobos, dos quais tentou
defender-se, superando seus medos e tomando a iniciativa. Fera chega ao seu
encontro, entretanto luta com os animais e a salva, mas fica machucado. Em
seguida nesta cena, ela faz menção de subir no cavalo e deixá-lo ali, mas resolve
ajudar a Fera. Ela parece entender ser necessário abrir mão de alguns
interesses narcísicos para tornar realidade um amor, agora podendo ajudá-lo e
aceitando seu desejo, já que Fera não lhe parece mais um bicho repugnante, mas
uma possibilidade de relação com um homem que não seu pai. (PIRES e FACCHIN,
2010, p. 6).
O castelo representa para Bela uma jornada ao seu
inconsciente para resolver seus conflitos edípicos e o espelho, é a ligação de
Bela com a Fera, que a faz retornar para ele, desta vez pronta para amá-lo e se
tornar sua mulher. A representação da Fera no animal ajuda Bela inicialmente, a
negar sua pulsão sexual direcionada para o pai. A maldição refere-se à redenção
de Fera, para que este supere seu narcisismo, cortejando a moça, que se torna
seu objeto de desejo, desta vez projetada no outro e, não mais voltado para si.
Esta transformação se concretiza quando Fera tem sua aparência modificada e,
volta a ser o príncipe, desta vez generoso. (PIRES e FACCHIN, 2010, p. 8).
Enquanto para o príncipe a rosa simboliza a maldição, para
Bela representa sua passagem do narcisismo, até sua aquisição da feminilidade,
que ao desabrochar, manifesta a superação de seus medos e desejos de sua
infância. Despertando para o ato sexual compreende o ato de entregar-se para o
outro, e evidencia a capacidade de amar e ser correspondida.
Para
Bela deixar o pai, precisou, por assim dizer, aceitar este medo ao incesto e
tê-lo presente apenas na sua fantasia, até conhecer o homem-animal e descobrir
suas verdadeiras reações como mulher. Ela ao voltar para sua casa com a
intenção de ajudar o seu pai, constata que seu coração já não pertence mais
àquele lugar, e, desta maneira, passa a ter condições de viver um amor não
incestuoso com Fera (CORSO & CORSO, 2005, p. 135).
Bela teve um ato de coragem movida por seus desejos
inconscientes, da relação edípica com o pai, a ponto de quebrar as regras que
foram impostas à ela. Seu ato de coragem levou à sua transformação e
amadurecimento, tornando-se assim uma mulher, superou seus conflitos, lutou com
a Fera e apaixonou-se pelo animal, sendo este gesto de amor, responsável não
apenas por sua própria mudança, mas também de todo contexto, desde os serviçais
até o animal enfeitiçado. Provou que sua atitude inicialmente espontânea e
teimosa foi a causa de uma grande transformação benéfica. Bela contrapõe-se às
personagens da Bela Adormecida e Branca de Neve, que ficaram esperando ser
salvas emocionalmente e fisicamente pelos príncipes.
Assim fizeram as mulheres no movimento feminista, se
rebelando contra os paradigmas sociais, movendo ações para modificar estes
estigmas, obtendo conquistas e a valorização pessoal e nesse sentido, se
aproxima da mulher no século XXI, abordada anteriormente.
Capítulo
III: Feminilidade e Psicanálise
Nos Três
Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, Freud (1905) apresenta sua primeira teoria sexual, com a hipótese
de que os
aspectos da sexualidade infantil, se devem ao autoerotismo, ou seja, o objeto
que lhe propícia o prazer, situa-se em seu próprio corpo e das pulsões sexuais
parciais, que se desprendem e se esforçam para atingir o prazer. O fechamento
do desenvolvimento estabelece a vida sexual normal na fase adulta, em que o
alcance do prazer, fica a incumbência da função reprodutora e as pulsões
parciais, envolvem as zonas erógenas, organizando a base para a aquisição do
objeto sexual. Ainda percorrendo os Três Ensaios da Sexualidade de Freud, ele
apresenta uma diferenciação no desenvolvimento das organizações da sexualidade
infantil e adulta, sendo que até a fase da puberdade, a vagina ainda não é
descoberta. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Ainda segundo Freud,
a chamada organização pré-genital refere-se às zonas genitais que ainda não se
apropriaram de seu comportamento. A primeira organização está relacionada à
oralidade, sendo esta primitiva e instintiva. A sua atividade envolve também o
outro na busca de se obter prazer, ou seja, a incorporação do objeto, que irá
configurar uma identificação importante neste processo de desenvolvimento
psíquico. Se houver resíduos desta fase da organização sexual, a prática sexual
desenvolverá patologias, em que o objeto de investimento da libido, deixa de
ser um objeto externo e a busca do prazer é voltada para o próprio corpo,
renunciando o alvo alheio.
A segunda fase pré-genital refere-se à
organização sádico-anal. Esta denominação foi utilizada por Freud (1905) para
descrever a sensação do prazer da excreção como posteriormente, a estimulação
erótica da mucosa anal por meio da retenção das fezes. Inicialmente, o objeto
da atividade anal-sádica é as fezes e sua eliminação é considerada como um ato
sádico, tendo já ocorrido a constituição da cisão. Nesta fase não pode ser
denominada masculinidade ou feminilidade e sim, ativo e passivo. A atividade
sexual se dá através do órgão, produzindo a pulsão através da musculatura do
corpo, do órgão, validando a mucosa erógena do intestino. Nesta fase ainda não
é possível apresentar a escolha do objeto sexual, pois ainda há a ausência do
papel reprodutor.
A puberdade é a
fase da configuração normal definitiva da vida sexual, pois já foram inseridas
as transformações da fase pré-genital. Aqui as funções sexuais são atribuídas
de forma diferente no sexo feminino e no sexo masculino.
As [funções sexuais] do
homem é o mais consequente e também o mais facilmente acessível a nossa
compreensão, enquanto o da mulher representa até mesmo uma espécie de
involução. A normalidade da vida sexual só é assegurada pela exata convergência
das duas correntes dirigidas ao objeto sexual e à meta sexual: a de ternura e a
sensual. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171
- 222).
O objeto sexual do
homem está voltado para o descarregamento dos conteúdos sexuais vinculados ao
prazer, que se põe a serviço da função reprodutora e que se torna altruísta,
para obtenção do êxito, tendo particularidades em suas funções.
Ainda a teoria dos
Três Ensaios da Sexualidade (FREUD,
1905; Vol. II, p. 171 - 222),
aponta que somente a partir da puberdade, é que se estabelecem as
características femininas e masculinas, configurando a influência definitiva da
vida humana.
É certo que já na
infância se reconhecem bem as disposições masculinas e femininas; o desenvolvimento das inibições da sexualidade (vergonha, nojo, compaixão etc.)
ocorre nas garotinhas mais cedo e com menor resistência do que nos meninos;
nelas, em geral, a tendência ao recalcamento sexual parece maior, e quando se
tornam visíveis às pulsões parciais da sexualidade,
elas preferem a forma passiva. Mas a atividade auto erótica das zonas erógenas
é idêntica em ambos os sexos, e essa conformidade suprime na infância a
possibilidade de uma diferenciação sexual como a que se estabelece depois da
puberdade. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Freud aponta em relação às manifestações autoerótica
e masturbatórias, que se houvesse um material mais preciso para investigação,
poderia alegar que o caráter sexual das meninas é inteiramente masculino, já
que a libido é característica masculina e essa se dá, tanto no menino quanto na
menina.
3.3
Zonas Dominantes no Homem e na Mulher
Freud (1905) em sua experiência sobre as masturbações
das meninas acrescentou que embora a genitália externa seja significativa para
as funções sexuais, a zona erógena dominante localiza-se no clitóris, sendo
correspondente a zona genital masculina e, diante da excitação e atração sexual,
a área estimulada é o clitóris. Sendo assim a menina projeta nos meninos de uma
forma correta, mesmo sem serem direcionadas, as sensações de seus próprios
processos sexuais. Para compreender as mudanças da menina em mulher, se torna
necessário observar as transições posteriores da excitação do clitóris.
Quando a mulher
transfere a excitabilidade erógena do clitóris para a vagina, ela muda a zona
dominante para sua atividade sexual posterior, ao passo que o homem conserva a
dele desde a infância. Nessa mudança da zona erógena dominante, assim como na
onda de recalcamento da puberdade, que elimina, por assim dizer, a
masculinidade infantil, residem os principais determinantes da propensão das
mulheres para a neurose, especialmente a histeria. Esses determinantes, portanto,
estão intimamente relacionados com a natureza da feminilidade. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Na puberdade os meninos trazem uma extensa
libido, já na menina a libido se destaca no recalcamento afetando a sexualidade
do clitóris. Esse recalcamento na puberdade da mulher gera inibições sexuais,
que consequentemente estimulam ainda mais a libido masculina, aumentando ainda
mais sua atividade e supervalorização sexual, enquanto que a mulher renega sua
sexualidade. Quando a mulher enfim se entrega à prática sexual, o clitóris
transmite excitações às outras partes femininas e nessa transferência, se faz
necessário, um intervalo de tempo, já que a mulher fica insensível. Se a zona
clitoridiana se negar ceder à excitação, tal anestesia pode se tornar
permanente. A estas anestesias na vagina podem somar-se os determinantes
psíquicos consequentes do recalcamento, no entanto, ainda são capazes de
excitação no clitóris ou em outras áreas erógenas. (FREUD, 1905; Vol.
II, p. 171 - 222).
Quando o afeto dos pais pelos filhos obtém
êxito em prevenir a pulsão sexual precoce, evita assim, somatizações na
puberdade. Consequentemente desenvolve um sistema genital saudável, orientando
o filho na maturidade da escolha do objeto sexual. Sendo assim, a opção do
filho pelo objeto sexual se tornaria acessível se investissem nas mesmas
pessoas amadas, no entanto, o adiamento desta maturidade sexual, abre espaços
para obstáculos com relação a sexualidade, ou seja, a barreira do incesto, empregando
os paradigmas morais, construídos pela sociedade, que abominam a relação do
investimento sexual à parentes consanguíneos. (FREUD, 1905; Vol. II, p.
171 - 222).
O respeito a essa
barreira é, acima de tudo, uma exigência cultural da sociedade, esta tem de se
defender da devastação, pela família, dos interesses que lhe são necessários
para o estabelecimento de unidades sociais superiores, e por isso, em todos os
indivíduos, mas em especial nos adolescentes, lança mão de todos os recursos
para afrouxar-lhes os laços com a família, os únicos que eram decisivos na
infância. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171
- 222).
A representação da escolha do objeto sexual
se consolida por meio de um processo de amadurecimento, dispondo de fantasias
que não se concretizam. Durante esse processo as fantasias sexuais emergem, em
todos os seres humanos, que durante a infância, tinha essa energia sexual
voltada aos pais, apenas diferenciada pela opção do sexo oposto, sendo a da
filha direcionada para o pai e do filho voltada para a mãe. O repúdio a essas fantasias
incestuosas pertence à realização psíquica significativa, mas também dolorosa.
Durante o período da puberdade há um desligamento da autoridade dos pais,
gerando uma rivalidade fundamental para a cultura, perpetuada entre as
gerações. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Em cada uma das etapas
do curso de desenvolvimento pelo qual todos os indivíduos são obrigados a
passar, um certo número deles fica retido, de modo que há pessoas que nunca
superam a autoridade dos pais e não retiram deles sua ternura, ou só o fazem de
maneira muito incompleta. Em sua maioria, são moças que, para a alegria dos
pais, persistem em seu amor infantil muito além da puberdade, e é muito
instrutivo constatar que é a essas moças que falta, em seu posterior casamento,
a capacidade de dar ao marido o que é devido a ele. Tornam-se esposas frias e
permanecem sexualmente anestesiadas.
(FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Essas mulheres se
alimentam de uma energia libidinal voltada aos pais, acreditando que este amor,
não é um amor-sexual. Ao se aproximar dos conflitos profundos do
desenvolvimento psicossocial, mais se evidencia a opção fundamental do objeto
sexual incestuoso. A Psicanálise demonstra que essas mulheres adoecem ao se
depararem com uma relação amorosa infeliz, pois reverteram sua libido para as
pessoas amadas da infância. Tornam-se mulheres enamoradas por seus parentes
consanguíneos manifestando seus sintomas inconscientes em doenças, que se traduzem
conscientemente, que recriminam seus desejos ocultos, gerando uma necessidade
exagerada de afeto e idealização à prática sexual. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
Mesmo que se previna a fixação libidinal
infantil não se está livre de ser influenciado por ela. Isso se evidencia
quando um rapaz se enamora por uma mulher madura e a menina, por um homem mais
velho atribuído de autoridade, vivenciando nessas figuras, as imagens da mãe e
do pai. Tais atribuições aos relacionamentos com a identificação das figuras
maternas e paternas da infância, podem ocasionar consequências conflituosas na
vida sexual adulta, como por exemplo, o ciúme, idealização, ambivalência e
doenças psicossomáticas, acompanhadas de auto recriminação.
Freud denominou que
o complexo de castração é mantido pelos meninos, depois de diversos conflitos
interiores é que a ideia é abandonada; já nas meninas, a falta do pênis é
substituída em forma de diversas perversões. A dedução do genital semelhante
masculina é reconhecida no clitóris feminino, como um substituto do pênis. A
menina se nega a identificar no genital masculino, reconhecendo sua diferença e
a falta do pênis, originando a inveja e o desejo de tornar-se também menino. (FREUD, 1905; Vol. II, p. 171 - 222).
O Complexo de Édipo foi descrito
por Freud (1924) como um conjunto de desejos amorosos e hostis que a criança
traz em relação a seus pais. A criança dirige seus desejos sexuais ao seu
progenitor do sexo oposto e, deseja o desaparecimento do progenitor do mesmo
sexo, criando esse processo de maneira subjetiva.
Sigmund Freud diz, nesta fase do
desenvolvimento há uma problemática bastante evidente, que se dá através da
dissolução do complexo, pois é através do processo de “fechamento” deste, que
aparecem os sintomas de abandono: a ameaça e a castração sentida pela criança
de forma drástica. Com o processo de castração, vem à tona as fantasias das crianças
ao se depararem com a diferença anatômica de ambos os sexos. Esse processo
acaba por apresentar algumas diferenças entre meninos e meninas.
Nos meninos, quando estes observam a
ausência do pênis na menina, este acredita que tenha sido tirado dela e que,
posteriormente, irá acontecer o mesmo com ele. Já a menina ao observar a
ausência do pênis em si mesma, acredita que este tenha sido tirado dela,
através de um dano sofrido, o que ela procura negar e, posteriormente,
compensar ou reparar. Ela vê a falta do pênis como uma ferida narcísica, já que
a menina sente “cobiça” pela falta do pênis.
A observação que finalmente
rompe sua descrença é a visão dos órgãos genitais
femininos. Mais cedo ou mais tarde a criança, que tanto
orgulho tem da posse de um pênis, tem uma visão
da região genital de uma menina e não pode deixar de convencer-se da ausência de um
pênis numa criatura assim
semelhante a ela própria. Com isso, a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha seu efeito adiado. (FREUD,
1924, p. 3-4).
Freud diz também que a criança
quando tem autoridade para distinguir seu órgão sexual, tem a autoridade do Ego
introjetada e, a partir daí, a criança passa também a inibir seus desejos
edipianos, dando base ao Super Ego. Quando esse processo chega a seu fim, inicia-se
o chamado período de latência, descrito posteriormente por Freud.
(...) A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o
núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste
contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal.
As tendências libidinais pertencentes ao
Complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente
acontece com toda transformação em uma identificação)
e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. (FREUD, 1924, p. 1).
A competição de amor também é bem
evidente durante esse processo, pois ao mesmo tempo em que a criança ama um de
seus progenitores, também sente que está havendo uma disputa com o outro e ao
mesmo tempo, se identifica com ele, havendo uma forma de afeto, o que acarreta
os traços de ambivalência.
No campo da Psicanálise a mulher
tem sido investigada e observada em diversos aspectos. A intenção de estudo não
é descrever o que é ser mulher, isto tornaria algo dificilmente descritível,
seu objetivo é estudar o desenvolvimento e formação em sua construção psíquica.
Através dos textos freudianos, instrumentos importantíssimos para se pesquisar
a feminidade, a teoria traz o aspecto da sexualidade que é altamente
reconstrutora da história da mulher.
Na teoria sexual apresentada por
Freud (1905), ele aponta a hipótese de que as crianças de ambos os sexos, reconhecem
o órgão sexual masculino. A menina sente inveja do pênis e se aproxima do pai
na intenção de obter esse pênis. Esta tentativa de possuir o falo, torna-a
rival da mãe. Durante a fase de
desenvolvimento da organização sexual, na primeira fase, denominada fálica, a
criança volta a atenção para a região genital, apresentando um comportamento
narcisista. Na segunda fase nomeada como a genital, no início da adolescência,
os impulsos sexuais são retomados e o mesmo busca a perda da identidade
infantil e dos pais, diferenciando se dos outros, afirmado em Freud (1931) que,
até a puberdade, a vagina não é descoberta.
Para Freud, “aquilo que constitui a masculinidade ou a
feminilidade é uma característica desconhecida que foge do alcance da anatomia”.
O conhecimento da diferença sexual entre os sexos, leva a menina a
renunciar à masculinidade e, se voltar para a feminilidade. A rivalidade entre
a mãe e a menina a direciona a se tornar mulher. Freud (1931) enfatiza a
relação mãe e filha como a estruturação para a construção da feminilidade. A
importância desta ligação é identificado no narcisismo, no início da vida. A
relação de contato com a figura materna é fundamental na constituição subjetiva
do eu, confundindo-se com seu próprio eu.
Na constituição do sujeito o eu
ideal e o ideal de eu se faz fundamental, sendo que o eu, será construído
através de valores, preferências e rejeições absorvidas pelos pais, portanto as
idealizações dos mesmos, recaem na criança, a imagem de si é o real projetado
do outro. Este lugar simbólico se desdobra quando o sujeito se esforça para
satisfazer as idealizações de perfeições narcísicas, introduzidas no início da
vida. No campo da libido o ser humano busca esta satisfação experimentada na
infância e, procura recuperar o eu ideal.
A fase pré-edipiana da menina se
faz de extrema importância na ligação da mesma com sua mãe. O complexo para a
mesma é um processo demorado, pois a castração se faz, a partir do
reconhecimento do objeto fálico do homem. Freud (1930) descreve três situações
clássicas: a frigidez decorrente, devido a insatisfação com o clitóris e, o
abandono da atividade fálica, uma ligação complexa à masculinidade na esperança
de ser possuidora de um pênis e, tornar-se homem e a atitude feminina, mais
observável desde então, que transforma o pai em objeto de desejo, para que
posteriormente sua escolha heterossexual seja resultado do mesmo.
Portanto, a fase vivenciada do
complexo de Édipo será responsável pela construção da posição sexual escolhida
pelo sujeito. A identificação realizada pela criança tem papel fundamental para
a construção da identidade da mesma. Os estudos freudianos investigam o que
traz o fim do vínculo entre a mãe e a filha, sendo que o mesmo não apenas
substitui o objeto de amor, mas o hostiliza. Neste período de transição, os
sentimentos desenvolvidos podem influenciar e persistir ao longo da vida entre
ambas e, em diversos casos, não tem recesso esta hostilidade.
De encontro com esta hostilidade
vem a identificação, na qual a menina faz sua mãe um modelo feminino, a seguir
para a conquista do pai. De acordo com Freud (1931) a resolução da feminilidade
se faria na fecundação de um filho, que lhe traria o objeto fálico faltante,
portanto uma filha não traria a plenitude fálica almejada, não sendo a menina,
merecedora do investimento narcísico, que o menino receberia. “A mulher reconhece o fato de sua
castração e, com isso também, a superioridade do homem e sua própria
inferioridade e se revolta, contra essa situação desagradável” (FREUD, 1931, p.
279).
Após frustrações decorrentes ao
complexo edípico, a menina recalca este conteúdo para não perder o amor dos
pais. A feminilidade aparece quando a menina redireciona a outro homem o desejo
de obter o falo. Estudos freudianos sobre a feminilidade demonstram a
incompletude do conceito.
3.9 Contribuições da Psicanálise
para compreensão do Feminino
Freud postulou seus estudos em um período da
sociedade, em que esta exercia um forte controle sobre os comportamentos
sexuais, em especial das mulheres, que se sentiam culpadas e pecaminosas em
relação aos seus desejos, sendo assim desenvolviam neuroses histéricas,
repressões sexuais, depressão e paralisia, decorrentes da repressão social e
libidinal. As teorias de Freud trouxeram contribuições para a compreensão do
desenvolvimento sexual feminino, tanto naquela época, quanto nos dias atuais.
Atualmente na sociedade aumentaram as tolerâncias em relação aos conteúdos
sexuais, mudando a forma de visão no quesito da sexualidade da mulher, que
antigamente devia reprimir seus impulsos e se portar de forma passiva, tanto na
prática sexual, quanto em seu papel social, que se limitava aos afazeres
domésticos e maternais. Essa mesma visão se traduz nos contos de fadas, na
personagem Cinderela que interpreta a mulher idealizadora, na Bela Adormecida
em seu papel passivo, e que depende do príncipe para o seu despertar, mas assim
como em todas as histórias das mulheres, que lutaram por seus ideais e direitos
de uma posição ativa, somos apresentados à personagem Bela, que se propôs a
tomar o rumo de sua história, e alcançar assim, o amadurecimento no amor,
rompendo suas relações edípicas e estigmas sociais atribuídos às mulheres.
Freud percebeu as queixas comuns a
todas as mulheres e o reconhecimento de seus desejos. O que é uma mulher? Ele
não se propõe a responder tal questão. Mas define a feminilidade como uma
conquista a ser realizada, em que a menina tem o desafio em se tornar uma
mulher. A castração seria o obstáculo com a qual a mulher se depara. Tornar-se
uma mulher é percorrer um caminho no qual, ela faz essa escolha, já que não
nasce com sua feminilidade definida. Freud define a mulher com uma natureza
pulsional passiva e, propõe que a maternidade, seja a solução para a inveja do
pênis. A teoria freudiana aborda que tanto para o menino quanto para a menina,
apenas o órgão sexual masculino é considerado, o pênis. Assim a criança passa
da crença para a descoberta de que “o pênis não é uma possessão, comum a todas
as criaturas que a ela se assemelham”. (FREUD, [1923], 1996, p. 159). A falta
desse pênis é a consequência da castração. É na teoria da castração que Freud articula
como se dá o complexo de Édipo na menina e no menino, sendo este o conceito que
organiza as diferenças dos sexos.
Foi no artigo: A Dissolução do
Complexo de Édipo em 1924, que Freud enfatizou o percurso diferente do
desenvolvimento dos meninos e das meninas. Inicialmente a menina vê o clitóris
como um pênis e só se depara com sua falta ao ver o pênis do menino, sendo
assim se sente inferior e injustiçada, sua esperança está na expectativa de um
dia ser possuidora deste órgão. (FREUD, [1924], 1996, p.197). A castração fica
sendo na mulher como o medo da perda do amor, ou na ameaça de não ser amada.
Freud, em 1914, escreve: “Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas
de ser amada”. (FREUD, 1996, p. 95). Dessa forma ao se sentirem amadas e possuir
o objeto amado recuperam seu narcisismo e eleva-a mais uma vez. (FREUD, 1996,
p. 106).
A falta do pênis traz consequências
no desenvolvimento da sexualidade feminina, como o afrouxamento de sua relação
afetuosa com a mãe e o sentimento de inferioridade, em relação aos meninos.
Segundo Freud: “[...] seu sentimento narcísico de humilhação ligado à inveja do
pênis, [...] é um ponto no qual ela não pode competir com os meninos, e que
assim seria melhor para ela abandonar a ideia de fazê-lo. ” (FREUD, 1996, p.
284). Freud aponta ainda uma importante ligação da menina com a mãe e que esta
fase pode ser observada, quando muitas mulheres escolhem os maridos, conforme o
modelo do pai, ou colocam-no no lugar deste, se estes repetirem na vida
conjugal, os maus relacionamentos da filha com a mãe. O marido destas mulheres
que se destinava a serem herdeiros do relacionamento desta com o pai, torna-se
na realidade herdeiro do relacionamento desta com sua mãe. (FREUD, 1996, p.
239). Freud explica que muitos casamentos de mulheres jovens podem, em sua
primeira experiência amorosa, se destinar ao fracasso, já que representa a
relação inicial do bebê com a mãe e, posteriormente, a hostilidade.
[...]
ela falhou em fornecer à menina o único ou órgão genital correto, que não a
amamentou o suficiente, que a compeliu a partilhar o amor da mãe com outros,
que nunca atendeu às expectativas de amor da menina e, finalmente, que primeiro
despertou a sua atividade sexual e depois a proibiu [...]. (FREUD, 1996, p.
242).
A
experiência inicial da relação da menina com a mãe não traz hostilidades, pois
a criança é amamentada, limpa e ensinada. Essa experiência inicial mantém
ligada a uma parte de sua libido, outra parte transforma-se em atividade. A
preferência da menina em brincar com bonecas, está ligada à relação inicial
afetiva desta com a mãe.
Freud
afirmou a dificuldade e a incapacidade tanto da Psicologia quanto da Psicanálise,
de encontrar um significado para solucionar o enigma da feminilidade. Ele
relata: “[...] a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher, mas se
empenha em indagar como é que a mulher se forma e como a mulher se desenvolve
desde a criança dotada de disposição bissexual. ” (FREUD, 1996, p. 117). Ainda
acrescentou que tanto a fase pré-edípica, quanto a edípica, influenciam
diretamente o futuro e, nenhuma delas, é adequadamente superada. Sendo assim a
ligação afetuosa destas fases trazem características futuras para a mulher, na
forma de desempenhar seu papel na função sexual e tarefas sociais.
Considerações finais
O trabalho teve como
objetivo apresentar o contexto histórico e social do papel da mulher e discutir
o feminino nos contos de fadas, através de uma abordagem psicanalítica freudiana.
No contexto social, a
mulher da Idade Média, era vista como secundária e inferior. No século XX, esse
contexto social era focado no ambiente familiar. Na Revolução Feminista, as
mulheres lutaram pela igualdade social e pelos direitos como cidadãs, indo contra
a dominação do patriarcado e, como resultados de seus movimentos, as mulheres
contemporâneas conquistaram a independência financeira, liberdade de expressão,
emancipação do seu corpo e do pensamento, que antes, eram sufocados pelo
contexto social. Adquiriu a autonomia em optar por adiar o matrimônio e a
maternidade, priorizando qualificações profissionais. Atualmente é grande o número
de mulheres em universidades, assim como, exercendo profissões, que antes
somente eram exercidas pelos homens. Sendo assim, é possível observar que a
história do papel da mulher na sociedade, é marcada por desafios, lutas e
conquistas e, seu desafio atual, a manutenção do equilíbrio entre as
realizações dos seus sonhos e a realidade pela qual sobrecarrega seu papel,
pois, tais mudanças trouxeram como consequências, novas possibilidades e
responsabilidades.
Ao longo deste trabalho enfatizamos a
importância dos contos de fadas na construção imaginária do papel social da
mulher, representando as fantasias e os desejos projetados nas histórias.
Contudo, os contos possibilitam que usufruamos
de seus conteúdos, para elaborar as angústias atribuídas no desenvolvimento,
através de situações de conflitos, que precisam ser formuladas e podem ter sido
recalcadas através da não elaboração. A literatura têm importante influência
social, seus conteúdos e linguagem simbólica, permitem à criança explorar o
mundo mental, projetando o não permitido. Mesmo com as mudanças sociais, os
contos de fadas continuam atraindo as meninas, alimentando o sonho de serem
princesas. Nos contos as princesas aparecem com padrões de feminilidade, beleza
e bondade, cada qual à sua maneira e, forjando assim, um ideal de mulher, além
de que as temáticas dos contos representam os conflitos familiares com os quais
as crianças se identificam, assim como a inveja, rivalidade e destruição.
Os contos de fadas se confrontam com a função
independente que a mulher contemporânea desempenha na sociedade. Nos contos,
como por exemplo, o da Cinderela e da Bela Adormecida, os príncipes são
descritos como homens fortes, educados, protetores e leais. As princesas ficam
à espera desses príncipes encantados que vêm para salvá-las. Esse era o padrão
da mulher da Idade Média, dependente do homem, sem autonomia e liberdade de
tomar suas próprias decisões.
No conto da Bela e a Fera, o papel da
personagem está mais próximo da postura da mulher Contemporânea, que não
contente com que a vida lhe imporá, sai em busca de encontrar e determinar seu
próprio destino, sendo autônoma em suas escolhas, tanto na forma de viver,
quanto na escolha do objeto de amor.
Através da teoria psicanalítica
podemos apontar que a construção humana se dá desde a infância, o prazer ou o
desprazer vivenciado nesta fase se reflete na vida adulta, sendo assim, é
difícil abdicar deste prazer já experimentado, “dessa forma o passado, o
presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.” (FREUD,
1907-1908 p.172).
Na conferência sobre a
“feminilidade” em (1933), Freud questiona parâmetros conclusivos sobre o que é
específico da mulher. Postula que também há atribuições da cultura e do social
na definição do que é feminino e masculino. A investigação psicanalítica descreve
a menina como bissexual e que esta vem tornar-se uma mulher, já na fase do
complexo de Édipo, a menina elege o pai como objeto de amor. Na menina a ameaça
de castração não é desencadeada pela intervenção do pai para evitar o desejo
incestuoso da filha para com sua mãe. Esta deprecia- se ao se deparar com o
objeto fálico faltante na mãe e volta-se amorosamente para o pai. Sua escolha
pela feminilidade se dá a partir deste ponto, na rivalidade com a mãe e na
inveja do pênis do pai. Enquanto os meninos têm que repudiar a feminilidade
pelo complexo da castração, as meninas devem assumi-la. Este é o desafio de
tornar-se mulher. A castração reflete na mulher o medo da perda do amor, ou na
ameaça de não ser amada. Dessa forma ao se sentirem amadas e possuir o objeto
amado recuperam seu narcisismo. No entanto, segundo Freud, a fase pré-edípica e
a edípica influenciam diretamente o futuro, e nenhuma delas é adequadamente
superada. Sendo assim a ligação afetuosa destas fases trazem características
futuras para a mulher na forma de desempenhar seu papel na função sexual e
social.
O desafio de se tornar uma mulher e assumir
seus desejos são construídos, a menina não nasce com sua feminilidade definida,
mas uma tarefa a ser desenvolvida. O que é ser mulher? Freud em respeito a esta
pergunta não formula uma resposta final, deixa a questão em aberto. É provável
que sem responder, no entanto, nos deixou o legado do caminho para sua
resposta: a Psicanálise. O tratamento psicanalítico visa retirar o sujeito da
via das idealizações e o colocar em um lugar de construção idiossincrática.
Neste trabalho podemos dizer acerca do que é ter idealizações, fantasias,
desejos e conquistas, mas o que é ser uma mulher, é necessário que seja sempre
uma pergunta a ser respondida pela via da singularidade.
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